{"id":1108,"date":"2025-06-23T15:16:37","date_gmt":"2025-06-23T15:16:37","guid":{"rendered":"https:\/\/chiola.ao\/?p=1108"},"modified":"2025-06-23T15:16:37","modified_gmt":"2025-06-23T15:16:37","slug":"escritora-amelia-dya-kassembe-angola-e-um-mosaico-de-culturas-temos-que-valoriza-la-e-preservar-para-toda-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/chiola.ao\/index.php\/2025\/06\/23\/escritora-amelia-dya-kassembe-angola-e-um-mosaico-de-culturas-temos-que-valoriza-la-e-preservar-para-toda-a-vida\/","title":{"rendered":"ESCRITORA AM\u00c9LIA DYA KASSEMBE: \u201cAngola \u00e9 um mosaico de culturas, temos que valoriz\u00e1-la e preservar para toda a vida\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Rec\u00e9m-chegada de Paris, Fran\u00e7a, onde reside h\u00e1 mais de 40 anos, a escritora, docente, investigadora, m\u00e9dica, Am\u00e9lia Dya Kassembe, est\u00e1 a preparar-se para a apresenta\u00e7\u00e3o em breve de mais uma obra liter\u00e1ria, com o t\u00edtulo \u201cSicrano\u201d. Autora de v\u00e1rios livros publicados, dos quais um romance, um livro de factos hist\u00f3ricos e dois ensaios, fala do seu dia-adia em terras gaulesas, dos desafios enquanto aposentada e do percurso liter\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quanto tempo est\u00e1 a residir em Paris e como tem sido a sua rotina di\u00e1ria naquele pa\u00eds? Estou a viver h\u00e1 44 anos em Fran\u00e7a, onde escrevi o livro \u201cAngola 20 Anos de Guerra Civil, Uma Mulher Acusa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda n\u00e3o foi traduzido em portugu\u00eas. Mas \u00e9 muito interessante, onde eu conto toda a hist\u00f3ria do nosso quotidiano com os portugueses etc. at\u00e9 chegar ao processo de independ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu digo que o processo de independ\u00eancia e a independ\u00eancia de Angola n\u00e3o foram normais. N\u00f3s t\u00ednhamos um Governo de Transi\u00e7\u00e3o. Se hoje n\u00f3s estar\u00edamos assim, porque englobava todas conex\u00f5es. Veja l\u00e1 como n\u00f3s estamos?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como chegou \u00e0 Fran\u00e7a e qual foi o seu primeiro livro publicado naquele pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro livro que eu publiquei em Fran\u00e7a \u00e9 \u201cAngola 20 Anos de Guerra Civil, Uma Mulher Acusa\u201d. Eu cheguei \u00e0 Fran\u00e7a como refugiada, uma vez que n\u00e3o podia regressar a Angola e n\u00e3o pertencia a nenhum partido. Sou rebelde de natureza como uma boa Kissamista. Os verdadeiros Kissamistas n\u00e3o obedecem a regras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como assim e porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu, como sou mesmo um pouco anarquista, n\u00e3o obede\u00e7o nem \u00e0 Igreja, nem \u00e0 pol\u00edtica, nem ao meu pai mesmo. Os conflitos todos com o meu pai eram por causa disso. Ent\u00e3o preferi ficar em Fran\u00e7a que \u00e9 um pa\u00eds democr\u00e1tico, onde tu podes dizer o que sentes e o que pensas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O livro teve v\u00e1rias rea\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 ao n\u00edvel da literatura, mas tamb\u00e9m de outros c\u00edrculos. Resumidamente, qual era a sua real inten\u00e7\u00e3o ao public\u00e1-lo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O livro \u201cA 20 Anos de Guerra Civil, Uma Mulher Acusa\u201d esses 20 anos de guerra realmente foram uma guerra est\u00fapida. Morreu muita gente e a guerra continuou.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 acabou em Fevereiro de 2002, n\u00e3o \u00e9? Ent\u00e3o, eu, no meu esp\u00edrito de revolta, paguei nos tr\u00eas l\u00edderes principais, o Savimbi, da UNITA, o Holden Roberto, da FNLA e o Agostinho Neto, do MPLA, e falei de cada um deles em detalhe.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tenho provas de que Savimbi era filho de um portugu\u00eas. Primeiro combateu os outros antes de formar o seu partido, em 66. Sei tamb\u00e9m que a sua Tropa de Elite, Os Flechas, foi formada por portugueses para combater os terroristas e ele depois acabou por ficar com a mesma. Contei a hist\u00f3ria dele de trambiquisses e tudo mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m contei a hist\u00f3ria do Holden com suas alian\u00e7as e o que ele fez para a gente estar onde estamos hoje e falei tamb\u00e9m de Agostinho Neto. Portanto, eu acuso esses tr\u00eas l\u00edderes nesse meu livro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como tem distribu\u00eddo os livros publicados em Angola?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Damos a algumas livrarias universidades que tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam, isto \u00e9, no caso de livros publicados em Fran\u00e7a. H\u00e1 alguns que est\u00e3o traduzidos. S\u00f3 12 \u00e9 que n\u00e3o est\u00e3o ainda traduzidos, que \u00e9, o \u201cAngola 20 Anos de Guerra Civil, Uma Mulher Acusa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez este n\u00e3o seja o momento. O meu editor deve ter medo de o fazer. Estou \u00e0 espera e a trabalhar aposentada, ent\u00e3o vou empenharme na tradu\u00e7\u00e3o dos livros que ainda n\u00e3o foram traduzidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os que j\u00e1 foram s\u00e3o distribu\u00eddos aqui, nos PALOP\u2019s. Al\u00e9m da tradu\u00e7\u00e3o, dedicar-me-ei tamb\u00e9m \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. Estou a escrever agora em portugu\u00eas para quando tiver que lan\u00e7ar num pa\u00eds da l\u00edngua portuguesa prosseguir. Tenho j\u00e1 5 livros traduzidos em portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como se tem articulado com os seus confrades da CPLP ao n\u00edvel da literatura?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu conhe\u00e7o poucos. Eu estive em Cabo Verde, no quadro da CPLP, e depois nunca mais eu recebi convite do g\u00e9nero, porque aqui quem controla j\u00e1 sabe quem \u00e9. N\u00e3o me deixam. Em muitas vezes, mesmo os jornalistas aqui, t\u00eam muito medo de me convidar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como tem conciliado a carreira liter\u00e1ria com outras actividades?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhando, escrevendo. Agora estou aposentada e posso fazer mais. Tentei fazer alguma coisa, c\u00e1 em Angola, e muitos acharam que eu n\u00e3o tinha carisma, como militante do MPLA, hum\u2026n\u00e3o tinha. N\u00e3o gostaram mesmo do mim por causa dos livros que eu escrevo contra eles.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quais s\u00e3o as suas fontes de inspira\u00e7\u00e3o e como tem partilhado as suas mem\u00f3rias al\u00e9m-fronteiras?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m-fronteiras, os meus livros s\u00e3o lidos em Mo\u00e7ambique, no Brasil, em Cabo Verde. Pelo menos, nos pa\u00edses de express\u00e3o portuguesa e nos pa\u00edses de express\u00e3o francesa, porque eu escrevi cinco livros em franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Convivi com gentes da Europa e n\u00e3o s\u00f3 por causa desse livro. Fui at\u00e9 os Petr\u00f3polis, Brasil e em Cabo Verde. Por exemplo, no meu livro, \u201cAs Mulheres Honradas e Insubmissas de Angola\u201d, onde conto os rituais, do que era a mulher antes e do nosso olhar para o ocidente, \u00e9 um bestseller. Eu sou assim, sei muita coisa e acho muita coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O que voc\u00eas falam no Candongueiro, nas paragens, nas lojas, na pra\u00e7a, porque eu tran\u00e7o o cabelo na pra\u00e7a. Vou comprar isso tudo e vou conhecendo a hist\u00f3ria de cada cidad\u00e3o. Esta \u00e9 a fonte da inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que lhe ocorreu na altura em que escreveu o livro \u201cAs Mulheres Honradas e Insubmissas de Angola\u201d que se tornou um Best-seller?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A inten\u00e7\u00e3o \u00e9, eu vi essas mulheres todas com identidade e dispostas. Ent\u00e3o, decidi escrever esse livro baseando-me nos meus conhecimentos que eu tive no sobado onde vivi e depois fui pesquisar.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordo-vos que uma vez estivemos numa confer\u00eancia onde apareceu uma cidad\u00e3 da Am\u00e9rica do Sul, que ao olhar para a sala, entendeu que s\u00f3 estava cheia de gente negra do que branca.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o ela disse ser\u00e1 que o sujeito de que est\u00e3o a abordar, era africano do Congo? Tenho muita pena, porque voc\u00eas africanos j\u00e1 t\u00eam fil\u00f3sofos, t\u00eam pessoas que escrevem muito boa literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Podiam aproveitar e fazer essas refer\u00eancias. Mas voc\u00eas insistem em ir buscar os brancos que escreveram sobre voc\u00eas e fazer refer\u00eancia a esses livros que muitas vezes, o que eles dizem l\u00e1 do preto \u00e9 objecto. N\u00e3o \u00e9 verdade? Voc\u00eas n\u00e3o sei porque s\u00e3o t\u00e3o complexados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como eles reagiram \u00e0 chamada de aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Lamentavelmente disseram que esta senhora \u00e9 racista, e eu respondi-lhes, n\u00e3o \u00e9. Aqui n\u00e3o se est\u00e1 a tratar de racismo. A senhora est\u00e1 a alertar-nos, tentando abrirnos os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 a dizer que voc\u00eas africanos t\u00eam que come\u00e7ar a abrir o olho. E hoje ainda estamos assim! Ent\u00e3o foi por isso que eu tentei buscar aqueles conhecimentos antigos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui para a Universidade de Filosofia, n\u00e3o para aprender a filosofia. \u00c9 para comparar a minha filosofia com a vossa. Ficava ao meio dos brancos e dizia-lhes eu vim comparar a minha filosofia com a vossa, mas nada. Eu n\u00e3o estou aqui para aprender nada, s\u00f3 estou aqui para comparar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Onde pode ser encontrado o best-seller?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O best-seller \u201cAs Mulheres Honradas e Insubmissas de Angola \u201d est\u00e1 na Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Cultura (UNESCO). A institui\u00e7\u00e3o aproveitou-a por causa da Educa\u00e7\u00e3o Feminina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.opais.ao\/flipbook\/edicao-3260-20-06-2025-a-22-06-2025\/\">Leia mais em\u2026<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rec\u00e9m-chegada de Paris, Fran\u00e7a, onde reside h\u00e1 mais de 40 anos, a escritora, docente, investigadora, m\u00e9dica, Am\u00e9lia Dya Kassembe, est\u00e1 a preparar-se para a apresenta\u00e7\u00e3o em breve de mais uma obra liter\u00e1ria, com o t\u00edtulo \u201cSicrano\u201d. 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