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1 de Novembro, 2026
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“Essa veia de procurar fazer dinheiro com alguma ideia que seja boa faz de mim o que sou”

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“Essa veia de procurar fazer dinheiro com alguma ideia que seja boa faz de mim o que sou”
Antonia GoncaloPor Antonia Goncalo

Miguel Francisco da Silva, ou simplesmente Micha para os mais próximos, é um jovem empresário de 39 anos, natural do município de Lucala, província do Cuanza-Norte. Reside há vários anos nas terras do Maiombe, em Cabinda. É profissionalmente despachante oficial desde 2010

Alberto Coelho, Em Cabinda

Pai de seis filhos, diz sentir-se “um bom Cabinda” desde que chegou a esta província em 1994, com 17 anos, por imperativos da guerra que assolou o país durante muitos anos. O nosso entrevistado contou na primeira pessoa como veio parar às terras do Maiombe com menor idade.
“Depois das escaramuças de 1992, o Cuanza-Norte ficou sitiada pela UNITA e, por meio das Forças Armadas, consegui chegar a Luanda como deslocado. Um tio que vive em Cabinda decidiu que eu cá viesse viver com ele. Foi assim que cheguei em Cabinda”, explicou.
Micha é um jovem de mil e um ofícios. Profissionalmente, é despachante oficial desde 2010. Por iniciativa própria, criou as empresas Miguel da Silva-Despachante, a MFS-Transporte e Logística, e é proprietário do espaço ecoturístico Jardim do Zôngolo.
“Gosto de aproveitar todas as minhas vivências para fazer dinheiro. Se eu aprender alguma coisa, vejo sempre a oportunidade disso para gerar dinheiro. Essa veia de procurar fazer dinheiro com alguma ideia que seja boa faz de mim o que sou”, enfatizou.

Nunca sonhou ser despachante
Apesar de ainda ser novo para entrar no mercado de emprego, Miguel da Silva precisava trabalhar. Por intermédio do tio de um amigo seu, começou a ter, apenas por curiosidade, os primeiros contactos com os serviços aduaneiros para “queimar o tempo”, uma vez que não tinha pretensão ou criado a ideia de ser despachante. “Entendia muito pouco sobre o futuro na carreira.”
Com o tempo, Miguel da Silva começou a ter conflitos entre o horário da escola e do trabalho. Por isso, preferiu deixar o escritório de despachante para trabalhar num restaurante como garçom.
“Foi daí que comecei a gostar de coisas ligadas à restauração e hotelaria”, revelou.
Como garçom, teve contactos com vários clientes, com destaque para Martinho dos Santos, um despachante oficial que frequentava bastante o restaurante.
“Convidou-me para trabalhar com ele”, disse à nossa reportagem, momento em que Miguel da Silva começou a apaixonar-se pela profissão, levando a sério o gosto de ser despachante e envolvendo-se seriamente nos estudos da literatura aduaneira.
“Ganhei gosto e, desde aí, decidi que tinha que ser despachante oficial”, apesar de ter várias oportunidades de ingressar em empregos melhores, como nas alfândegas, actual AGT. Em 2004, através de um concurso público para ajudantes de despachante e, em 2010, depois de participar de outro concurso, torna-se um despachante oficial por conta própria, até à presente data.

Espaço Ecoturístico Jardim do Zôngolo
“Criei este projecto não para ficar rico, mas para ficar para a história.”
No interior do município de Lucala, Cuanza-Norte, onde nasceu e cresceu, Miguel Francisco da Silva estava sempre em contacto directo com a natureza, cuidando dos animais e das plantas e caçando pássaros, porque “gostava desse ambiente”.
“Quando alguém sai desse habitat e vai para a cidade, acha que a vida aí se torna mais dura, já que, para ter, precisa de comprar. No campo, não. Com fome, comes uma goiaba ou uma manga e estás saciado. A vida no campo parecia-me mais fácil e na cidade mais difícil”, sublinhou.
Essa vivência com o campo despertou no jovem empresário a ideia de construir, num terreno baldio na zona do Zôngolo, a casa própria para estar em contacto directo com a natureza, proporcionando aos filhos o mesmo ambiente que viveu em Lucala, onde o pai tinha uma fazenda e 11 funcionários.
A casa foi construída. Com o tempo, foi tendo dificuldades em transformar o espaço como desejava, para servir somente à família.
Por este facto, foi cedendo, de forma gratuita, o espaço aos amigos que aí promoviam eventos comemorativos, sobretudo casamentos e aniversários.
Com isso, contou à nossa revista, nasceu a ideia de converter o local num espaço para gerar dinheiro.
“Como havia muita gente interessada, pensei logo que, com esse espaço, dava para fazer dinheiro. Comecei a melhorar e a criar condições para abrir ao público. Aumentei o número mente aos domingos”, explicou Miguel da Silva.
A facturação dá para manter o espaço em funcionamento. Na ementa, os pratos mais concorridos são os grelhados de cacusso, tilápia e o churrasco da galinha fiote.
Para além destes pratos fazerem a delícia da casa, o freguês pode também optar pela pizza, grelhados mistos, entre outras iguarias.
Segundo o nosso entrevistado, os preços são simpáticos. Variam de 4 mil a 20 mil kwanzas.
“Tentamos fazer um preço que todo bolso consiga suportar, permitindo que qualquer pessoa possa comer.”
Para além dos serviços de restauração, o Jardim do Zôngolo oferece um parque de diversões para crianças e não só, com acesso a barquinhos aquáticos, karting, entre outros brinquedos.
De acordo com Miguel da Silva, o espaço já acolheu visitas de turistas provenientes do Congo Brazzaville, República Democrática do Congo, China e França.
Com a projecção que o Jardim do Zôngolo começa a ter a nível nacional e internacional, Miguel da Silva apela ao Governo de Cabinda o seu empenho para reabilitar a via de acesso que liga a cidade ao povoado do Zôngolo, conferindo nela iluminação pública, para facilitar a circulação de pessoas e bens, tendo em conta o elevado número da população que aí vive.
A nossa reportagem constatou que a via apresenta-se esburacada e a escuridão invade as noites; e o mau estado da via condiciona o serviço de táxi, sobretudo no período nocturno.

Um projecto único em Cabinda.
Espaço Ecoturístico Jardim do Zôngolo é, por enquanto, o único na província, apesar de a cultura eco ainda ser pouco conhecida na região. “Em termos eco, não temos concorrência.
Queremos incutir nas camadas mais jovens e nos adultos a maneira de pensar, para que haja um equilíbrio entre o ser humano e o ambiente que o cerca. Hoje, a cultura ambiental em Cabinda é muito reduzida”, referiu.
“Gostaríamos que o governo olhasse para o projecto Jardim do Zôngolo como a cara da cidade, que representa a identidade da província. Já recebemos turistas chineses, franceses e congoleses nesse espaço”, acrescentou.
E disse mais: “Criei este projecto não para ficar rico, mas para ficar para a história.”
Para além do Jardim do Zôngolo (restauração e diversão), o espaço alberga ainda as empresas “Miguel da Silva-Despachante Oficial” e a “MFS – Transporte e Logística”, com um total de 73 trabalhadores.
A tarefa mais difícil é manter em funcionamento diário o Jardim do Zôngolo e, caso não houvesse o apoio das outras empresas, o espaço estaria a trabalhar a meio gás.
“Cada ano evoluímos e o nosso crescimento é bom, e isto se deve a outras empresas que temos no grupo e ao esforço que temos em transformar ideias em dinheiro.”
Quando foi inaugurado em 2022, o nível de execução das obras do projecto Jardim do Zôngolo estava na ordem dos 35 por cento. Neste momento, o cronograma de implantação está na ordem dos 57 por cento.
Os 43% que faltam de evolução para a sua conclusão englobam a construção de residências, zona balnear, transformando o espaço em piscina natural.
“Pretendemos transformar a futura piscina natural em um parque aquático”, disse Miguel da Silva, acrescentando que, no final das obras, projecta-se a implementação de um oceanário, ou seja, um aquário com as espécies de peixes nativos de água doce da província de Cabinda.
Catalogar as árvores nativas de Cabinda, cuja variedade da sua madeira é bastante conhecida internacionalmente, consta dos planos do projecto.

Dificuldades em ser empresário em Cabinda
Segundo o nosso entrevistado, em Cabinda, sobreviver como empresário não é fácil, porque a descontinuidade geográfica coloca-o em muitas desvantagens.
Sobreviver nesse enclave como homem de negócios é muito difícil. Miguel da Silva explica:
“Se busca a mercadoria em outra província do país, o custo é duas vezes superior ao valor de importação.” Isto, acrescentou, “complica a vida do empresário em ter lucros e disponibilizar o produto a baixo preço ao consumidor.”
No seu entender, a descontinuidade geográfica limita a livre circulação de pessoas e bens. Mesmo assim, o empresário olha para essa descontinuidade geográfica como vantagem que podia ser aproveitada para fazer negócios e vender os produtos locais aos países vizinhos, nomeadamente as Repúblicas Democrática do Congo e o Congo Brazzaville.
Para ele, a proximidade da província de Cabinda aos mercados congoleses deveria facilitar a circulação de pessoas e mercadorias e, deste modo, vender mais para eles, já que, em termos económicos, somos mais fortes que os dois países vizinhos.
“Não estamos a saber aproveitar a oportunidade de poder vender para esses países encravados e menos desenvolvidos que o nosso. Deveria haver uma política de Estado para essa situação”, referiu.

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